segunda-feira, 24 de novembro de 2025

FÁTIMA DESMASCARADA: A VERDADE HISTÓRICA ACERCA DE FÁTIMA DOCUMENTADA COM PROVAS

 


FÁTIMA DESMASCARADA: A VERDADE HISTÓRICA ACERCA DE FÁTIMA DOCUMENTADA COM PROVAS

(João Ilharco)

 

Edição do autor, João Ilharco, proprietário de uma escola primária e professor, Fátima Desmascarada foi originalmente composto e impresso em Coimbra, na Tipografia Comercial, em meados de 1971, e apresentado como o resultado de uma prolongada investigação sobre a história de Fátima, com o fito de demonstrar a falsidade de todos os «fenómenos sobrenaturais de carácter religioso».

Logo no preâmbulo, sem subterfúgios ou rodeios, João Ilharco assumiu o seu laicismo: «Uma pessoa imparcial, que estude atentamente os acontecimentos de Fátima, chegará à conclusão de que qualquer outro fenómeno religioso, independentemente da época ou do lugar em que se haja desenrolado, tem na história de Fátima uma imagem quase perfeita da sua origem e evolução. Conhecer, portanto, em pormenor, a história de Fátima, desde 1917 até aos nossos dias, é desvendar a forma por que surgem e se expandem as crenças religiosas.»

 O livro surge em plena Primavera Marcelista.

Na Assembleia Nacional, mas também na imprensa, debatia-se a revisão constitucional, procurando ampliar tanto quanto possível os direitos, liberdades e garantias individuais.

 Objetivos que serão alcançados ainda nesse ano, com a promulgação e publicação em Diário do Governo de vários diplomas, designadamente a Lei n.º 3/71, de 16 de Agosto – que define a «nova redacção de várias disposições da Constituição Política Portuguesa»; a Lei n.º 4/71, de 21 de Agosto – que estabelece «as bases relativas à liberdade religiosa»; e a Lei n.º 5/71, de 5 de Novembro – que fixa as «bases relativas à lei de imprensa».

 Natural de Coimbra e republicano, João Ilharco interessou-se pelo caso de Fátima, pois estava convicto de que tinha sido «obra de um pequeno grupo de eclesiásticos, inteligentes e ousados, que tinham contra o regime republicano, implantado em 1910, grandes ressentimentos.»

 Na edificação dessa «obra», a imprensa e o livro tinham desempenhado um papel fundamental, pelo que a obra demolidora de João Ilharco foi, sobretudo, suportada na análise desses documentos, a fim de identificar quem os redigiu, de revelar como é que a história foi sendo encadeada ao longo dos anos, e de fixar as suas principais contradições e incongruências.

 A fazer fé nos catálogos das bibliotecas e nas notícias, em 1971 foram extraídas mais cinco edições de Fátima Desmascarada. Seis edições em seis meses é um indicador inquestionável do “interesse” que suscitou. No entanto, essa procura não foi fomentada por qualquer campanha publicitária, pelo contrário.

 Na imprensa, pelo menos, a publicação de Fátima Desmascarada foi inicialmente ignorada. Só em finais de Outubro de 1971 o livro se tornou notícia, sobretudo na imprensa católica, próxima do regime, primeiro no diário Novidades, depois no semanário A Ordem, e mais tarde na revista Stella. Nessa altura, o livro já somava três ou mais reedições. Mais do que uma reação ao livro, este despertar tardio e concertado parece configurar uma mudança da estratégia de comunicação da Igreja, especialmente dos setores católicos mais arreigados ao culto fatimista.

 Foi o Correio de Coimbra, semanário da diocese, que assumiu a responsabilidade de sustentar uma longa campanha para desacreditar o autor de Fátima Desmascarada. Durante meses, o diretor do semanário, o cónego Urbano Duarte, e João Ilharco, ao abrigo do direito de resposta, trocaram acusações, alegações, e apresentaram provas e testemunhos, como num tribunal. Deste exercício continuado ficou por legado o registo de uma história insólita sobre a edição de um livro que pôs em causa o Milagre de Fátima.

 No final do ano, e para satisfazer os seus leitores não assinantes, o Correio de Coimbra decidiu reunir e publicar em separata toda a contenda, a que deu o título Desmascarado o autor de «Fátima Desmascarada». Discussão entre o Director do Correio de Coimbra, Urbano Duarte, e João Ilharco. A iniciativa foi anunciada na primeira edição de 1972.

 Embora a «discussão» tivesse terminado, o Correio de Coimbra manteve o assunto “vivo” mais algum tempo, com a publicação, em janeiro e fevereiro de 1972, de umas cartas enviadas ao cónego Urbano Duarte por duas figuras que foram envolvidas na polémica: Alberto Vilaça e Mário Braga.

Em resposta, João Ilharco também mandou imprimir uma brochura com a sua defesa: Fátima desmascarada: polémica, editada em Coimbra, nesse mesmo ano de 1972.

 Neste breve texto, justificado pelos ataques que o seu livro - "excepcional «best-seller» no acanhado mercado livreiro português" - recebeu de "uns tantos fundibulários",  reitera o que considera terem sido os alicerces e princípios da sua investigação: "superar o desassombro, a certeza de juízos, a seriedade, o escrúpulo e a documentação" na abordagem ao tema de Fátima.

 Tanto quanto foi possível averiguar, a restante imprensa manteve-se alheia a este debate.

 Quanto muito referiu-se ao livro, como foi o caso do República que a 23 de Outubro de 1971, na rubrica «O que se escreve e o que se lê», assegurada por Alfredo Guisado, deu nota do aparecimento do livro, em termos abonatórios: «O dr. João Ilharco usa de uma impressionante maneira de conduzir o caso com a sua calma e sem pressa demasiada, com o fim de convencer os que pretendem ouvi-lo com a precisa atenção e apresenta provas que convencem os que ainda não estão convencidos. Mas como se costuma dizer, não há mais perigosos cegos do que aqueles que não querem ver.»

 

 

Lei n.º 3/71 de 16 de Agosto (PDF)

Lei n.º 4/71 de 21 de Agosto (PDF)

Lei n.º 5/71, de 5 de Novembro (PDF)

 

"Livro ou panfleto", por Joaquim Maria Alonso.

Novidades, 28 Out. 1971, pp. 1-2

"Fátima desagravada", por Neves de Castro.

A Ordem: semanário católico, 13 Nov. 1971, p. 8

"Fátima e os seus demolidores", por Mendes de Vasconcelos.

A Ordem: semanário católico, 27 Nov. 1971, p. 8

"Notas e Comentários: Consciências vendáveis".

A Ordem: semanário católico, 11 Dez. 1971, p. 4

"A máscara da impiedade contra Fátima", por Abel Guerra. Stella: revista católica de cultura feminina, n.º 413, Mai. 1972, p. 6

 

"Sintomas. «Fátima desmascarada»". Correio de Coimbra, 28 Out. 1971, p. 7.

"«Fátima desmascarada»: Resposta de João Ilharco e comentários às suas alegações", por Urbano Duarte. Correio de Coimbra, 11 Nov. 1971, pp. 1, 7-8.

"Alegações de João Ilharco, autor de «Fátima desmascarada», em resposta a um «Sintoma» que o criticou", por Urbano Duarte. Correio de Coimbra, 18 Nov. 1971, pp. 7-8.

"Sintomas. Novas alegações". Correio de Coimbra, 25 Nov. 1971, p. 1.

"«Fátima desmascarada»: Resposta de João Ilharco". Comentários às alegações", por Urbano Duarte. Correio de Coimbra, 2 Dez. 1971, pp. 1-3, 8-9.

"«Fátima desmascarada»: Réu confesso. Terceiras alegações de João Ilharco. Comentários a estas novas Alegações", por Urbano Duarte. Correio de Coimbra, 16 Dez. 1971, pp. 1, 3, 10-11.

"Sintomas. Separata", Correio de Coimbra, 6 Jan. 1972, p. 1.

 

"Duas cartas do Dr. Alberto Vilaça ao director do «Correio de Coimbra» e uma ao Dr. Mário Braga". Correio de Coimbra, 13 Jan. 1972, pp. 1, 5-6.

"Nova carta do Dr. Alberto Vilaça", por Urbano Duarte. Correio de Coimbra, 27 Jan. 1972, pp. 1, 3.

"Carta do escritor Mário Braga motivada por um panfleto". Correio de Coimbra, 24 Fev. 1972, pp. 1, 3.

 

"O que se escreve e quem escreve. «Fátima desmascarada»", por Alfredo Guisado. República, 23 Out. 1971, p. 8.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Uma reunião pândega

 


Dr. Aníbal Pereira Reis (ex-Padre)

(Texto)

UMA REUNIÃO PÂNDEGA

Em virtude do estatuto canônico, os padres têm os seus encontros, onde são ventilados os assuntos atinentes ao seu ministério, quando lhes sobra algum resto de tempo empregado todo em anedotas e conversas inúteis.

O encontro dos padres da Arquidiocese de Lisboa, deu-se, no verão de 1915 na cidade de Torres Novas, cujo vigário, pe. Benevenuto de Souza, oferecera aos colegas um supimpo almoço regado de abundante vinho.

Encontravam-se lá dignatários embatinados, inclusive o Cardeal Mendes Belo, arcebispo de Lisboa, no propósito de estudarem os pormenores pertinentes à instalação da Diocese de Leiria, ali perto, cujo futuro bispo estava presente como o mais interessado no assunto.

Todos comeram e beberam à farta. Exceto três!

Foram comedidos por haverem decidido confabular um assunto muito sério, sob a responsabilidade do próprio cardeal-patriarca ferroteado pela situação política adversa.

E enquanto cada um dos clérigos se recostava para curtir os vapores do álcool e a modorra do meio dia, os três se recolheram a um quarto.

Entres eles se achava o pe. Benevenuto de Souza, tendo a bagagem das orientações e recomendações cardinalícias. Apesar do seu desapontamento com a dura experiência de 1910, quando os próprios paroquianos revoltados com suas imposturas tentaram destruir-lhe o templo dedicado à Senhora de Lourdes, confiado em suas habilidades de prestidigitador, resolveu aceitar a direção da comédia de uma nova aparição da Senhora.

Suas experiências tornaram-no conhecedor da alma popular. Sabia sondaras suas reações em face de cada conjuntura. Podia tranquilizar-se o cardeal arcebispo, porquanto aquele sacerdote capacitara-se de prevenir todas as possíveis surpresas.

Se o encontro canônico de Torres Novas ofereceu um lauto banquete aos clérigos e promoveu entendimentos sobre a instalação da Diocese de Leiria, o seu maior mérito foi estreitar num grande objetivo os sacerdotes: Benevenuto de Souza, o anfitrião, Manoel Marques Ferreira, vigário de Fátima, e Abel Ventura do Céu Faria, vigário de Seiça.

Nesse dia confabularam e decidiram levar avante o acontecimento de uma espetacular "aparição" da Senhora.

Evidentemente que a primeira circunstância a ser rigorosamente observada era a de deixar a salvo de qualquer suspeita o cardeal Antônio Mendes Belo, exausto de tantas contrariedades provocadas pela República que lhe desmantelara o prestígio no cenário político e social do País.

Ficou, por isso mesmo, acertado que "sua eminência" se poria aberta e publicamente contra as "aparições", para salvaguardar o bom nome da "igreja" na eventualidade de um fracasso.

À Lisboa retornou o cardeal muito tranquilo por reconhecer habilidade suficiente no pe. Benevenuto de Souza.

Em boas mãos coloquei a empresa!, cismava com seus botões.

Não se executa uma comédia no palco sem estudos e ensaios prévios!


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Outro "Conto do Vigário": A Senhora de Fátima

 


Dr. Aníbal Pereira Reis (ex-Padre)

(Texto)


O CLERO EM APUROS

Instalada em outubro de 1910, a República Portuguesa apeou o catolicismo de sua posição de religião oficial do Estado vigente durante os 8 séculos de Monarquia, posição essa que lhe favorecia o usufruir gordas benesses e alentadas regalias.

Inconformado, utilizava-se o clero das suas irmandades cediças, organizações medievais e, sobretudo, do confessionário para levar o povo ao descontentamento contra a nova situação no intuito de gerar um clima de rebeldia generalizada, a baderna, enfim. Suas investidas, porém, a prazo curto e exigido pelas circunstâncias, não surtiam os efeitos colimados.

O desespero clerical não impressionava a recente liderança do País, que fazia questão mesmo de se manter equidistante dos arreganhos eclesiásticos.

Nessa emergência decidiram os embatinados despertar e incrementar o ressurgimento de devoções populares ligadas a santuários e imagens, marcos de antigos prestígios e promotores de ambiente favorável à livre exploração do seu rendoso comércio.

As gerações do beatério amontoaram fartíssima abundância de aparições de santos e de "nossas senhoras", de milagres espetaculares e prodígios famosos dando base para fanáticas devoções, dentre as quais destaca-se a do rosário.

O clero sempre soube capitalizara opinião pública a seu favor. Hoje sabe lançar mão da imprensa, imiscuindo-se inclusive em seu noticiário para estar sempre na ordem do dia.

Por isso, em todos os lares naqueles idos de 1910-1920 assinalava a sua presença o "Santuário Mariano", um volume cheio de relatos fantasiosos, encarregado de conservar o rico patrimônio da credulidade. Cada página relatava um milagre ou uma aparição em que, via de regra, tinha como comparsa, pessoas ignorantes ou crianças tardias.

O povo, ao respirar agora os ares democráticos, porém, não reagia favoravelmente e nem se impressionava com suas programações religiosas anunciadas nos púlpitos, a cujo redor se postavam apenas pequenos grupos de beatas.

Os velhos santuários e as imagens taumaturgas das "nossas senhoras" dos mais variados pontos do País desapontavam a hierarquia eclesiástica por não atraírem já as atenções.

Sérias preocupações causavam-lhe sobretudo a verificação de que nas regiões tidas como as mais devotas, também os fiéis não acorriam aos seus apelos.

Esquecidas estavam as Senhoras do Amparo, do Sameiro de Nazaré, das Mercês, da Purificação.... Suas esculturas célebres do Olival, das Freixadas, do Fetal, de Seiça de Ridecouros não atraiam romarias compensadoras aos seus ávidos organizadores.

O clero convencia-se do risco de perder o seu domínio sobre aquele povo por ele sugado durante 8 séculos... A nova legislação do País levava-o a perder o contato com as crianças das escolas e com a juventude das universidades...

Que fazer?

Inviável explorar os antigos santuários! As experiências o demonstravam!



FÁTIMA DESMASCARADA: A VERDADE HISTÓRICA ACERCA DE FÁTIMA DOCUMENTADA COM PROVAS

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