Dr. Aníbal Pereira Reis (ex-Padre)
(Texto)
O CLERO EM APUROS
Instalada em outubro de 1910, a República Portuguesa apeou o
catolicismo de sua posição de religião oficial do Estado vigente durante os 8
séculos de Monarquia, posição essa que lhe favorecia o usufruir gordas benesses
e alentadas regalias.
Inconformado, utilizava-se o clero das suas irmandades
cediças, organizações medievais e, sobretudo, do confessionário para levar o
povo ao descontentamento contra a nova situação no intuito de gerar um clima de
rebeldia generalizada, a baderna, enfim. Suas investidas, porém, a prazo curto
e exigido pelas circunstâncias, não surtiam os efeitos colimados.
O desespero clerical não impressionava a recente liderança
do País, que fazia questão mesmo de se manter equidistante dos arreganhos
eclesiásticos.
Nessa emergência decidiram os embatinados despertar e
incrementar o ressurgimento de devoções populares ligadas a santuários e
imagens, marcos de antigos prestígios e promotores de ambiente favorável à
livre exploração do seu rendoso comércio.
As gerações do beatério amontoaram fartíssima abundância de
aparições de santos e de "nossas senhoras", de milagres espetaculares
e prodígios famosos dando base para fanáticas devoções, dentre as quais
destaca-se a do rosário.
O clero sempre soube capitalizara opinião pública a seu
favor. Hoje sabe lançar mão da imprensa, imiscuindo-se inclusive em seu
noticiário para estar sempre na ordem do dia.
Por isso, em todos os lares naqueles idos de 1910-1920
assinalava a sua presença o "Santuário Mariano", um volume cheio de
relatos fantasiosos, encarregado de conservar o rico patrimônio da credulidade.
Cada página relatava um milagre ou uma aparição em que, via de regra, tinha
como comparsa, pessoas ignorantes ou crianças tardias.
O povo, ao respirar agora os ares democráticos, porém, não
reagia favoravelmente e nem se impressionava com suas programações religiosas
anunciadas nos púlpitos, a cujo redor se postavam apenas pequenos grupos de
beatas.
Os velhos santuários e as imagens taumaturgas das
"nossas senhoras" dos mais variados pontos do País desapontavam a
hierarquia eclesiástica por não atraírem já as atenções.
Sérias preocupações causavam-lhe sobretudo a verificação de
que nas regiões tidas como as mais devotas, também os fiéis não acorriam aos
seus apelos.
Esquecidas estavam as Senhoras do Amparo, do Sameiro de
Nazaré, das Mercês, da Purificação.... Suas esculturas célebres do Olival, das
Freixadas, do Fetal, de Seiça de Ridecouros não atraiam romarias compensadoras
aos seus ávidos organizadores.
O clero convencia-se do risco de perder o seu domínio sobre
aquele povo por ele sugado durante 8 séculos... A nova legislação do País
levava-o a perder o contato com as crianças das escolas e com a juventude das
universidades...
Que fazer?
Inviável explorar os antigos santuários! As experiências o
demonstravam!

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