FÁTIMA DESMASCARADA: A
VERDADE HISTÓRICA ACERCA DE FÁTIMA DOCUMENTADA COM PROVAS
(João Ilharco)
Edição do autor, João Ilharco,
proprietário de uma escola primária e professor, Fátima Desmascarada
foi originalmente composto e impresso em Coimbra, na Tipografia Comercial, em
meados de 1971, e apresentado como o resultado de uma prolongada investigação
sobre a história de Fátima, com o fito de demonstrar a falsidade de todos os
«fenómenos sobrenaturais de carácter religioso».
Logo no preâmbulo, sem
subterfúgios ou rodeios, João Ilharco assumiu o seu laicismo: «Uma pessoa
imparcial, que estude atentamente os acontecimentos de Fátima, chegará à
conclusão de que qualquer outro fenómeno religioso, independentemente da época
ou do lugar em que se haja desenrolado, tem na história de Fátima uma imagem
quase perfeita da sua origem e evolução. Conhecer, portanto, em pormenor, a
história de Fátima, desde 1917 até aos nossos dias, é desvendar a forma por que
surgem e se expandem as crenças religiosas.»
O livro surge em plena Primavera
Marcelista.
Na Assembleia Nacional, mas
também na imprensa, debatia-se a revisão constitucional, procurando ampliar
tanto quanto possível os direitos, liberdades e garantias individuais.
Objetivos que serão alcançados
ainda nesse ano, com a promulgação e publicação em Diário do Governo de vários
diplomas, designadamente a Lei n.º 3/71, de 16 de Agosto – que define a «nova
redacção de várias disposições da Constituição Política Portuguesa»; a Lei n.º
4/71, de 21 de Agosto – que estabelece «as bases relativas à liberdade
religiosa»; e a Lei n.º 5/71, de 5 de Novembro – que fixa as «bases relativas à
lei de imprensa».
Natural de Coimbra e republicano,
João Ilharco interessou-se pelo caso de Fátima, pois estava convicto de que
tinha sido «obra de um pequeno grupo de eclesiásticos, inteligentes e ousados,
que tinham contra o regime republicano, implantado em 1910, grandes
ressentimentos.»
Na edificação dessa «obra», a
imprensa e o livro tinham desempenhado um papel fundamental, pelo que a obra
demolidora de João Ilharco foi, sobretudo, suportada na análise desses
documentos, a fim de identificar quem os redigiu, de revelar como é que a história
foi sendo encadeada ao longo dos anos, e de fixar as suas principais
contradições e incongruências.
A fazer fé nos catálogos das
bibliotecas e nas notícias, em 1971 foram extraídas mais cinco edições de
Fátima Desmascarada. Seis edições em seis meses é um indicador inquestionável
do “interesse” que suscitou. No entanto, essa procura não foi fomentada por
qualquer campanha publicitária, pelo contrário.
Na imprensa, pelo menos, a
publicação de Fátima Desmascarada foi inicialmente ignorada. Só em finais de
Outubro de 1971 o livro se tornou notícia, sobretudo na imprensa católica,
próxima do regime, primeiro no diário Novidades, depois no semanário A Ordem, e
mais tarde na revista Stella. Nessa altura, o livro já somava três ou mais
reedições. Mais do que uma reação ao livro, este despertar tardio e concertado
parece configurar uma mudança da estratégia de comunicação da Igreja,
especialmente dos setores católicos mais arreigados ao culto fatimista.
Foi o Correio de Coimbra,
semanário da diocese, que assumiu a responsabilidade de sustentar uma longa
campanha para desacreditar o autor de Fátima Desmascarada. Durante meses, o
diretor do semanário, o cónego Urbano Duarte, e João Ilharco, ao abrigo do direito
de resposta, trocaram acusações, alegações, e apresentaram provas e
testemunhos, como num tribunal. Deste exercício continuado ficou por legado o
registo de uma história insólita sobre a edição de um livro que pôs em causa o
Milagre de Fátima.
No final do ano, e para
satisfazer os seus leitores não assinantes, o Correio de Coimbra decidiu reunir
e publicar em separata toda a contenda, a que deu o título Desmascarado o autor
de «Fátima Desmascarada». Discussão entre o Director do Correio de Coimbra,
Urbano Duarte, e João Ilharco. A iniciativa foi anunciada na primeira edição de
1972.
Embora a «discussão» tivesse
terminado, o Correio de Coimbra manteve o assunto “vivo” mais algum tempo, com
a publicação, em janeiro e fevereiro de 1972, de umas cartas enviadas ao cónego
Urbano Duarte por duas figuras que foram envolvidas na polémica: Alberto Vilaça
e Mário Braga.
Em resposta, João Ilharco também
mandou imprimir uma brochura com a sua defesa: Fátima desmascarada: polémica,
editada em Coimbra, nesse mesmo ano de 1972.
Neste breve texto, justificado
pelos ataques que o seu livro - "excepcional «best-seller» no acanhado
mercado livreiro português" - recebeu de "uns tantos
fundibulários", reitera o que
considera terem sido os alicerces e princípios da sua investigação:
"superar o desassombro, a certeza de juízos, a seriedade, o escrúpulo e a
documentação" na abordagem ao tema de Fátima.
Tanto quanto foi possível
averiguar, a restante imprensa manteve-se alheia a este debate.
Quanto muito referiu-se ao livro,
como foi o caso do República que a 23 de Outubro de 1971, na rubrica «O que se
escreve e o que se lê», assegurada por Alfredo Guisado, deu nota do
aparecimento do livro, em termos abonatórios: «O dr. João Ilharco usa de uma
impressionante maneira de conduzir o caso com a sua calma e sem pressa
demasiada, com o fim de convencer os que pretendem ouvi-lo com a precisa
atenção e apresenta provas que convencem os que ainda não estão convencidos.
Mas como se costuma dizer, não há mais perigosos cegos do que aqueles que não
querem ver.»
Lei n.º 3/71 de 16 de Agosto (PDF)
Lei n.º 4/71 de 21 de Agosto (PDF)
Lei n.º 5/71, de 5 de Novembro (PDF)
"Livro ou panfleto", por Joaquim Maria Alonso.
Novidades, 28 Out. 1971, pp. 1-2
"Fátima desagravada", por Neves de Castro.
A Ordem: semanário católico, 13 Nov. 1971, p. 8
"Fátima e os seus demolidores", por Mendes de
Vasconcelos.
A Ordem: semanário católico, 27 Nov. 1971, p. 8
"Notas e Comentários: Consciências vendáveis".
A Ordem: semanário católico, 11 Dez. 1971, p. 4
"A máscara da impiedade contra Fátima", por Abel
Guerra. Stella: revista católica de cultura feminina, n.º 413, Mai.
1972, p. 6
"Sintomas. «Fátima desmascarada»". Correio de
Coimbra, 28 Out. 1971, p. 7.
"«Fátima desmascarada»: Resposta de João Ilharco e
comentários às suas alegações", por Urbano Duarte. Correio de
Coimbra, 11 Nov. 1971, pp. 1, 7-8.
"Alegações de João Ilharco, autor de «Fátima
desmascarada», em resposta a um «Sintoma» que o criticou", por Urbano
Duarte. Correio de Coimbra, 18 Nov. 1971, pp. 7-8.
"Sintomas. Novas alegações". Correio de
Coimbra, 25 Nov. 1971, p. 1.
"«Fátima desmascarada»: Resposta de João Ilharco".
Comentários às alegações", por Urbano Duarte. Correio de
Coimbra, 2 Dez. 1971, pp. 1-3, 8-9.
"«Fátima desmascarada»: Réu confesso. Terceiras alegações
de João Ilharco. Comentários a estas novas Alegações", por Urbano
Duarte. Correio de Coimbra, 16 Dez. 1971, pp. 1, 3, 10-11.
"Sintomas. Separata", Correio de Coimbra,
6 Jan. 1972, p. 1.
"Duas cartas do Dr. Alberto Vilaça ao director do «Correio
de Coimbra» e uma ao Dr. Mário Braga". Correio de Coimbra, 13
Jan. 1972, pp. 1, 5-6.
"Nova carta do Dr. Alberto Vilaça", por Urbano
Duarte. Correio de Coimbra, 27 Jan. 1972, pp. 1, 3.
"Carta do escritor Mário Braga motivada por um
panfleto". Correio de Coimbra, 24 Fev. 1972, pp. 1, 3.
"O que se escreve e quem escreve. «Fátima
desmascarada»", por Alfredo Guisado. República, 23 Out. 1971,
p. 8.