Dr. Aníbal Pereira Reis (ex-Padre)
(Texto)
UMA REUNIÃO PÂNDEGA
Em virtude do estatuto canônico, os padres têm os seus
encontros, onde são ventilados os assuntos atinentes ao seu ministério, quando
lhes sobra algum resto de tempo empregado todo em anedotas e conversas inúteis.
O encontro dos padres da Arquidiocese de Lisboa, deu-se, no
verão de 1915 na cidade de Torres Novas, cujo vigário, pe. Benevenuto de Souza,
oferecera aos colegas um supimpo almoço regado de abundante vinho.
Encontravam-se lá dignatários embatinados, inclusive o
Cardeal Mendes Belo, arcebispo de Lisboa, no propósito de estudarem os
pormenores pertinentes à instalação da Diocese de Leiria, ali perto, cujo
futuro bispo estava presente como o mais interessado no assunto.
Todos comeram e beberam à farta. Exceto três!
Foram comedidos por haverem decidido confabular um assunto
muito sério, sob a responsabilidade do próprio cardeal-patriarca ferroteado
pela situação política adversa.
E enquanto cada um dos clérigos se recostava para curtir os
vapores do álcool e a modorra do meio dia, os três se recolheram a um quarto.
Entres eles se achava o pe. Benevenuto de Souza, tendo a
bagagem das orientações e recomendações cardinalícias. Apesar do seu
desapontamento com a dura experiência de 1910, quando os próprios paroquianos
revoltados com suas imposturas tentaram destruir-lhe o templo dedicado à
Senhora de Lourdes, confiado em suas habilidades de prestidigitador, resolveu
aceitar a direção da comédia de uma nova aparição da Senhora.
Suas experiências tornaram-no conhecedor da alma popular.
Sabia sondaras suas reações em face de cada conjuntura. Podia tranquilizar-se o
cardeal arcebispo, porquanto aquele sacerdote capacitara-se de prevenir todas
as possíveis surpresas.
Se o encontro canônico de Torres Novas ofereceu um lauto
banquete aos clérigos e promoveu entendimentos sobre a instalação da Diocese de
Leiria, o seu maior mérito foi estreitar num grande objetivo os sacerdotes:
Benevenuto de Souza, o anfitrião, Manoel Marques Ferreira, vigário de Fátima, e
Abel Ventura do Céu Faria, vigário de Seiça.
Nesse dia confabularam e decidiram levar avante o
acontecimento de uma espetacular "aparição" da Senhora.
Evidentemente que a primeira circunstância a ser
rigorosamente observada era a de deixar a salvo de qualquer suspeita o cardeal
Antônio Mendes Belo, exausto de tantas contrariedades provocadas pela República
que lhe desmantelara o prestígio no cenário político e social do País.
Ficou, por isso mesmo, acertado que "sua
eminência" se poria aberta e publicamente contra as "aparições",
para salvaguardar o bom nome da "igreja" na eventualidade de um
fracasso.
À Lisboa retornou o cardeal muito tranquilo por reconhecer
habilidade suficiente no pe. Benevenuto de Souza.
Em boas mãos coloquei a empresa!, cismava com seus botões.
Não se executa uma comédia no palco sem estudos e ensaios
prévios!

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